OBESIDADE E TRANSPLANTE CARDIOLÓGICO PAUTAM REUNIÃO DO CONSELHO CIENTÍFICO DA AMB

Duas doenças que acometem uma parcela significativa da população brasileira pautaram a reunião do Conselho Científico da Associação Médica Brasileira (AMB) desta terça-feira (23). O encontro contou com a presença do presidente da AMB, Lincoln Ferreira, e do diretor científico da entidade, Antônio Carlos Chagas, além de representantes de sociedades de especialidades.

Os participantes ampliaram os conhecimentos sobre implante transcateter de válvula aórtica, apresentado por Fábio Sandoli de Brito Jr., coordenador do serviço de cardiologia intervencionista do Hospital Sírio Libanês; e sobre políticas de prevenção e tratamento da obesidade, abordados por Maria Edna de Melo, diretora do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia (Sben).

“A cardiologia e a endocrinologia são duas especialidades extremamente atuantes na comunidade científica brasileira e são muito importantes para levantar discussões que interferem diretamente na qualidade da saúde dos pacientes” destaca Antônio Carlos Chagas.

Políticas retrógradas e falta de diagnóstico
Quando o assunto é a prevenção da obesidade, o Brasil ainda caminha a passos lentos. A doença acomete cerca de 30 milhões de brasileiros e é subdiagnosticada. “Se uma pessoa é obesa e morre vítima de doenças como insuficiência cardíaca, diabetes ou hipertensão, o que desencadeou isso foi a obesidade, resultado da combinação entre pré-disposição e um ambiente que facilita o desenvolvimento da doença”, ressalta Maria Edna de Melo.
Enquanto no Brasil há um tímido avanço na rotulagem frontal de alimentos com alto teor de açúcar, em países como o Chile as recomendações da Organização Mundial de Saúde já são seguidas para frear a obesidade:
• Regulamentação da alimentação no ambiente escolar;
• Proibição da publicidade infantil;
• Taxação de bebidas açucaradas;
• Rótulos frontais, com alertas sobre os componentes nutricionais dos alimentos;

A diretora do departamento de obesidade da Sben sugere, inclusive, que as sobretaxas sejam expandidas para alimentos nutricionalmente pobres e altamente energéticos, como macarrões instantâneos e salgadinhos de milho. “Isso repercute nos hábitos alimentares e é comprovadamente contribui para a redução do consumo de refrigerantes e aumento da ingestão de água”, pontua Maria Edna de Melo.

Por enquanto, ainda estamos na contramão deste processo: os projetos que proíbem a publicidade infantil continuam engavetados no Congresso Nacional, não há leis específicas para regulamentar a alimentação escolar e as empresas de bebidas recebem subsídios da ordem de R$ 7 bilhões por ano.

Menos invasivo, mais eficaz
A reunião do Conselho Científico da AMB também abordou as inovações no tratamento de Estenose Aórtica, que normalmente acomete pacientes idosos. Estudos realizados nos últimos dez anos mostraram que o implante transcateter de válvula aórtica apresenta resultados no mínimo tão bons quanto a cirurgia tradicional.

“O paciente ganha com a realização de uma cirurgia minimamente invasiva, tempo de internação menor, recuperação e retomada das atividades normais mais rápidas. Assim, esse passou a ser o padrão ouro para pacientes com doença valvar aórtica”, explica Fábio Sandoli de Brito Jr.

O procedimento começou a ser testado em pacientes com risco cirúrgico alto ou que nem eram elegíveis para a cirurgia tradicional. Depois, foi avaliado em cenários de menor complexidade e mesmo os pacientes com baixo risco se beneficiaram dos resultados.
Apesar dos benefícios, a expectativa é que apenas 1.500 implantes transcateter sejam realizados no Brasil este ano. Ainda não há reembolso para o procedimento nos sistemas público e privado e o custo para o paciente é alto. Além disso, é uma intervenção que requer treinamento e experiência médica para obter os resultados demonstrados nos estudos.

Outra questão ainda precisa ser estudada: a durabilidade das próteses transcateter. Isso faz com que a indicação para o tratamento se restrinja a pacientes com mais de 70 anos. O coordenador do serviço de cardiologia intervencionista do Hospital Sírio Libanês, entretanto, se monstra confiante sobre o futuro do tratamento.

“Esse é um caminho sem volta. Assim como aconteceu com os stents coronários, extremamente caros há algumas décadas, não tenho dúvidas de que, no futuro, os implantes transcateter serão democratizados e vão estar disponíveis para o grande número de pacientes que necessitam desse tipo de tratamento”, destaca.

Foto: Gabriela Costa/Timbro Comunicação

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