Haddad descumpre meta da saúde e fila da cirurgia vai a 63 mil

A gestão Fernando Haddad (PT) não conseguiu em dois anos cumprir uma de suas principais promessas na área da Saúde: diminuir o número de pacientes que aguardam por uma cirurgia na cidade. Dados da Secretaria Municipal da Saúde mostram que, entre dezembro de 2012, último mês do governo Gilberto Kassab (PSD), e o mês passado, a fila para procedimentos cirúrgicos passou de 56.912 para 63.024, alta de 10,7%.

Hoje, o tempo médio de espera pela consulta médica cirúrgica, etapa prévia à realização da operação, é de 289 dias (cerca de nove meses e meio), 33 dias a mais do que o prazo médio de espera registrado em dezembro de 2012. A piora aconteceu mesmo com a inauguração de sete unidades da chamada Rede Hora Certa, equipamento criado pela atual gestão para aumentar a oferta de cirurgias.

Em nota oficial enviada à imprensa, o coordenador da atenção especializada da Secretaria Municipal da Saúde, Flavius Augusto Albieri, afirma que a fila “se estabilizou” desde 2013 em cerca de 63 mil procedimentos em espera. Ele destaca que com os hospitais Dia em construção e outros equipamentos em obras, como o Hospital de Parelheiros, a tendência é queda.

“Oferecemos mais consultas e exames do que antes, o que naturalmente cria mais demanda de cirurgias, porque aquelas pessoas que não teriam um diagnóstico e um encaminhamento, agora têm”, disse o coordenador da atenção especializada.

Durante a campanha, Haddad prometeu entregar 32 unidades – uma por subprefeitura -, com capacidade para realizar 200 procedimentos cirúrgicos por mês. Mas dados oficiais indicam que a meta não foi cumprida no ano passado. Ao todo, foram feitas 13.374 cirurgias nesses equipamentos, ante as 14.400 estimadas.

Na divisão de pacientes pela cidade, a alta de 10,7% foi mais sentida na zona sul, onde o número de pessoas na fila dobrou nos últimos dois anos – passou de 11,2 mil para 22,2 mil. Já quando se leva em conta o tempo de espera, as áreas mais críticas são pediatria e ginecologia, onde se aguarda até 479 dias pela marcação de cirurgia – é o caso das mulheres da zona leste.

Especialidades. No geral, a fila da saúde caiu 17% na cidade. A espera por consultas médicas especializadas diminuiu nos últimos dois anos, no patamar de 9% em toda a capital. Enquanto, no fim de 2012, 353.181 consultas aguardavam a realização, em fevereiro de 2015, o número caiu para 321.338.

Mas o tempo de espera por alguns procedimentos ainda passa de um ano. O morador da zona leste que precisar passar pelo proctologista, por exemplo, fica até 514 dias aguardando pelo atendimento. Na mesma região, a consulta com um psiquiatra pode demorar 404 dias.

Mesmo em especialidades consideradas básicas, há dificuldade para agendamento. Com a visão comprometida por uma catarata, a aposentada Judite Alves da Silva, de 86 anos, aguarda há três meses para se consultar com um oftalmologista. “Ela passou pelo clínico no posto de saúde, que deu o encaminhamento para o especialista, mas, até agora, não temos nem ideia de quando vão marcar a consulta. Ela não consegue mais andar sozinha, não enxerga”, conta a filha de Judite, Célia de Fátima Silva Soares, de 45 anos.

Exames. No caso dos exames, a queda geral foi mais significativa: a quantidade de pacientes na fila passou de 260.394 para 127.472 mil. O resultado é reflexo dos mutirões no início da gestão Haddad.

No total, 108.948 ultrassonografias deixaram a fila. De todos os tipos ofertados, só a espera pelo exame das glândulas salivares aumentou, e chega a 374 dias na zona leste. Já em relação aos sete exames de diagnose e terapia, a queda foi de 29,8%, passando de 80.224 em espera para 56.250.

‘Município deve priorizar pacientes com urgência’

Para o professor doutor Oswaldo Yoshimi Tanaka, da Faculdade de Saúde Pública da USP, a demora na realização de consultas e exames deveria levar o Município a debater a criação de uma fila prioritária da saúde, onde os pacientes com mais urgência fossem automaticamente transferidos para o topo da fila. Um modelo semelhante já é praticado hoje para seleção das crianças nas creches municipais.

Mas, para que um novo formato de fila fosse criado na saúde, Tanaka alerta que seria preciso terminar a digitalização da rede, que trabalha com fichas de papel. Depois, deve-se investir na qualidade da consulta. “Só com tempo é que o médico pode examinar o paciente, solicitar seu histórico e fazer um diagnóstico.”

Compartilhar em: