O paciente VIP

A função do médico é curar. Quando ele não pode curar, precisa aliviar. E quando não pode curar nem aliviar, precisa confortar. O médico precisa ser especialista em gente.

Celebridades fazem notícias. Suas vidas despertam interesse público. Quando doentes as luzes sobre estas personalidades parecem brilhar mais. Esta é a Síndrome do Paciente VIP – Very Important Person. Artistas, políticos, atletas, milionários e a realeza sofrem desta síndrome. Médicos e familiares, quando doentes, são considerados como VIPs. Suas doenças receberam até o termo especial de esmeraldose. O nome deriva da esmeralda – pedra do anel símbolo do médico.

A maioria dos pacientes, incluído os VIPs, não pede nada especial. Quando tratados de modo diferente desvia-se do ideal. Mais medicina não é melhor medicina. Abrir mão de regras por pressões, é aceitar o conveniente do menos custoso, ao invés de realizar o menos custoso do inconveniente.

Profissionais de saúde devem proteger a privacidade de seus pacientes, o que nem sempre ocorre. Opiniões inverídicas, verdades fora do contexto, auto-promoção, nada contribuem para o bem do paciente e para a serenidade da equipe.  A insatisfação da sociedade por “mais detalhes” pressiona os profissionais e instituições a se ver frente a questionamentos sobre a sua competência profissional.

Romper o silêncio ético? Como agir nesta situação?

O Código de Ética Médica trata o tema em diversos capítulos. É vetado ao médico revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do paciente.

Artistas no palco aprendem a esquecer o público. Devem fazer sua missão de nos entreter de forma firme. Esta é uma das premissas para o seu sucesso. Profissionais de saúde não são treinados a fazer em público sua atividade anônima. Acabam se confundindo e esquecendo que o principal papel da informação médica é primar pelo seu caráter educacional da sociedade.

Dr. Adib Jatene, um exemplo de ética e profissionalismo, possivelmente tenha sido o cirurgião que mais operou corações VIPs. Talvez inspirado em Oliver Homes (1809-1894), médico, escreveu que:  “A função do médico é curar. Quando ele não pode curar, precisa aliviar. E quando não pode curar nem aliviar, precisa confortar. O médico precisa ser especialista em gente.”

Dr. Júlio Sanderson, cirurgião de gente humilde, escreveu que a cura é anônima, mas a morte é notícia.

Façamos da cura notícia e dos insucessos lições para ensino. Que a sociedade entenda nosso eventual silêncio ao não expor privacidades. O paciente vai continuar sendo VIP e não sua doença. No entanto, os bastidores das histórias médicas de pessoas cheia de anéis ou coroas, servem de aprendizado no longo prazo. Ajudam entender o processo de tomada de decisão no sistema de saúde, cenário complexo e difuso, cheio de narcisismo e vaidades. Isto não é ensinado no livros didáticos. Hoje eu sei!

Alfredo Guarischi, médico

 

 

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