4º Congresso AMB debate avanços e desafios da Medicina de Emergência na assistência ao paciente crítico
A Medicina de Emergência foi destaque no 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral da Associação Médica Brasileira (AMB), com uma sessão dedicada à atualização de conhecimentos essenciais para a atuação em cenários de alta complexidade e tomada rápida de decisões. Coordenada pelo Dr. Fabricio Otavio Gaburro Teixeira e pelo secretário-geral da AMB, Dr. Florisval Meinão, a sessão reuniu especialistas para discutir temas centrais da prática emergencista.
Abrindo a programação, Dr. Gabriel Martinez apresentou a palestra “PCR além do ACLS na visão do emergencista”. Em sua exposição, abordou inicialmente as diferentes fases da parada cardiorrespiratória – elétrica, hemodinâmica e metabólica – e destacou as particularidades das ocorrências em ambientes extra-hospitalares e intra-hospitalares.

O especialista trouxe uma visão contemporânea do atendimento à parada cardiorrespiratória, com base nas diretrizes do Conselho Europeu de Ressuscitação (ERC). Entre os temas discutidos, destacou a ressuscitação cardiopulmonar extracorpórea (ECPR – Extracorporeal Cardiopulmonary Resuscitation), a parada cardiorrespiratória traumática e a parada cardiorrespiratória associada à hipotermia. Sobre este último tema, observou que, embora os casos sejam mais frequentes em países europeus devido às baixas temperaturas, também podem ser encontrados no Brasil, especialmente na Região Sul.
Ao ampliar a discussão para além dos protocolos tradicionais do ACLS, o palestrante enfatizou estratégias avançadas e abordagens específicas que podem contribuir para melhores desfechos clínicos no atendimento de pacientes críticos em serviços de emergência.
Na sequência, o Dr. Victor Paro conduziu a apresentação “Raciocínio clínico e semiologia no departamento de emergência”. A conferência abordou técnicas clássicas da semiologia médica aplicadas ao ambiente emergencial, destacando aspectos relacionados ao tempo, aos recursos disponíveis, aos custos assistenciais, à relação médico-paciente e às dificuldades técnicas enfrentadas no cotidiano dos serviços.
Ao ressaltar a importância da avaliação clínica estruturada e da interpretação adequada dos sinais e sintomas para a construção de diagnósticos precisos, mesmo em contextos de elevada pressão assistencial e limitação de tempo, o especialista afirmou que a relação médico-paciente tende a ser mais frágil no departamento de emergência.
“Muitas vezes você não tem a privacidade necessária para atender uma mulher com hemorragia. Você tem 15 minutos para atender um paciente que ficou cinco horas aguardando. Tempo é emergência”, afirmou.
Segundo o palestrante, o raciocínio semiológico exige habilidades como a realização de exame físico direcionado, o uso da ultrassonografia à beira do leito (POCUS), a avaliação padronizada pelo método ABCD, além da utilização de checklists e de estratégias para reconhecimento e mitigação de vieses cognitivos.
“A ferramenta ABCD, utilizada de maneira padronizada, faz com que o médico pule menos etapas, avalie o paciente de forma mais completa e siga a ordem mais adequada, identificando com maior rapidez situações críticas”, explicou.
Victor Paro também destacou métodos para reduzir vieses no departamento de emergência, como o uso de checklists, pausas cognitivas, reavaliações estruturadas e o foco nos piores cenários possíveis.
“Em um caso que não é gravíssimo, fazer uma pausa de quinze minutos para um café ou compartilhar o caso com um colega não faz bem apenas para você, mas também para o paciente”, afirmou. “Peque por excesso; assim, você aumentará a segurança do paciente”, concluiu.

Em seguida, o Dr. Ian Ward Abdalla Maia discutiu o tema “Ferramentas avançadas no manejo de via aérea”, abordando recursos e técnicas que vêm aprimorando a segurança dos procedimentos e a assistência a pacientes em condições críticas.
Ao enfatizar a importância da capacitação contínua, o especialista destacou que situações de emergência geram elevado nível de estresse e podem comprometer o desempenho dos profissionais.
“Quando nosso corpo se depara com uma ameaça, tende a performar pior. A emergência passa a ser uma ameaça estrutural, e a literatura demonstra claramente o impacto da pressão em situações de estresse. Perdemos a visão periférica e precisamos continuar raciocinando durante o atendimento”, explicou. “Por isso, precisamos equilibrar os recursos disponíveis com a demanda assistencial”.
Ao abordar a intubação em cenários de emergência, Ian Maia ressaltou que o procedimento exige preparação e alinhamento das expectativas com a realidade clínica de cada caso. “O que vai acontecer se eu não conseguir? Quais são os planos B e C? Precisamos planejar a nossa falha”, afirmou. “Essa organização ajuda nos momentos de estresse. Devemos dominar a técnica que mais utilizamos e aperfeiçoá-la continuamente”.
Para ilustrar o conceito, o palestrante citou uma frase atribuída ao ator e artista marcial Bruce Lee: “Não temo o homem que praticou 10 mil chutes diferentes uma vez, mas aquele que praticou o mesmo chute 10 mil vezes”.
A sessão foi encerrada com um debate entre os palestrantes e o público, promovendo a troca de experiências e a reflexão sobre os desafios cotidianos enfrentados pelos profissionais que atuam na linha de frente do atendimento de urgência e emergência.
Com uma programação voltada à atualização científica e ao aprimoramento da prática clínica, o 4º Congresso AMB reforça seu compromisso com a qualificação dos médicos brasileiros e com a disseminação de conhecimentos que contribuem para uma assistência mais segura, eficiente e baseada em evidências.