Muito além do CRM: o que os jovens médicos precisam construir para o futuro da carreira

A formação médica contemporânea precisa mais do que técnica e inovação. Em meio ao aumento expressivo do número de escolas médicas, à competitividade crescente e às novas exigências do mercado de trabalho, jovens médicos e estudantes têm sido desafiados a repensar o que significa, de fato, construir uma carreira sólida.
Esse foi o eixo central do painel “Além do CRM: Construindo a carreira do médico jovem”, realizado pela Comissão Nacional do Médico Jovem (CNMJ), da Associação Médica Brasileira (AMB), durante programação do 4º CBMG.
A coordenação esteve a cargo do Dr. Zeus Tristão dos Santos, presidente da CNMJ da AMB, e da Dra. Ana Cristina Ribeiro Zollner, responsável pela Residência Médica da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), reforçando a integração entre entidades médicas e a formação de novas lideranças.
Logo no início das discussões, ficou evidente um ponto de convergência entre os palestrantes: a distância entre o volume de informação disponível e a capacidade real de absorção pelos estudantes de Medicina.
O Dr. Marcos Aurélio Silva Oliveira, diretor de Projetos acadêmico-científicos da CNMJ e membro do Núcleo de Atuação Parlamentar da AMB, chamou atenção para esse paradoxo. Segundo ele, o estudante contemporâneo vive sob uma pressão constante de produtividade, tentando equilibrar graduação, produção científica e atividades extracurriculares em um tempo cada vez mais escasso. Para ele, porém, o risco está justamente no excesso.
A ideia de que tudo precisa ser feito ao mesmo tempo, observou, tem levado muitos estudantes ao limite. A construção de carreira, nesse sentido, passa também por escolhas e por renúncias.
Esse mesmo equilíbrio apareceu na fala sobre saúde mental e competências comportamentais. O Dr. Ângelo Fajardo Almeida, coordenador da CNMJ-AMRIGS, reforçou que o desempenho médico não se sustenta apenas no conhecimento técnico. Habilidades como empatia, comunicação, resiliência e trabalho em equipe, afirmou, são determinantes no exercício da profissão, e, muitas vezes, negligenciadas durante a formação.
Também chamou atenção para o impacto crescente do esgotamento emocional entre jovens médicos e estudantes, destacando que o burnout já se tornou uma realidade presente na rotina acadêmica e profissional.
Na mesma linha de formação ampliada, o debate sobre experiências extracurriculares trouxe as atléticas universitárias como um espaço relevante de desenvolvimento. O Dr. Pedro Pires Mayer Milanez, coordenador de Projetos com Atléticas e Esportes da CNMJ, ressaltou que esses ambientes extrapolam o caráter esportivo e funcionam como laboratório de habilidades humanas.
Liderança, tomada de decisão sob pressão, convivência em equipe e inteligência emocional, segundo ele, são competências frequentemente desenvolvidas nessas vivências e que acabam acompanhando o médico ao longo da carreira.
Futuro profissional
O olhar para o futuro profissional foi abordado pelo Dr. Caio Botelho Brito, especialista em Gestão da Qualidade e Segurança do Paciente e conselheiro suplente do CRM-PA. Ele comentou que a construção de carreira começa muito antes da residência médica e que o mercado exige cada vez mais preparo precoce.
Produção científica, participação em projetos, construção de rede de contatos e busca por mentores foram apontadas como peças fundamentais dessa trajetória. Em um cenário de alta competitividade, ressaltou, não basta apenas concluir a graduação — é preciso construir percurso.
A dimensão mais institucional e emocional do encontro foi apresentada pela vice-presidente da CNMJ, Dra. Amanda Stephanie Sousa dos Santos, e o Dr. Lucas de Brito Costa, vice-presidente da Associação dos Médicos Residentes do Estado de São Paulo, que destacaram o papel do associativismo como espaço de acolhimento e construção coletiva entre médicos jovens.
“O associativismo nos transformou em uma família. A CNMJ está aqui para mostrar que os médicos jovens e os futuros médicos terão apoio. Independentemente do estado ou da especialidade, os desafios são muito semelhantes, e ninguém precisa enfrentá-los sozinho”, disse a médica.
Ao final, o Dr. Zeus Tristão dos Santos reforçou a ampliação da representatividade nacional da CNMJ e o avanço dos projetos desenvolvidos pela comissão.
“Tínhamos uma concentração de profissionais no Sudeste. Hoje temos jovem médicos do Nordeste, do Sul e de várias regiões do país participando ativamente da CNMJ. Ver ideias saindo do papel e se tornando projetos reais é o que dá sentido a esse movimento. O associativismo existe para fortalecer a nossa profissão e apoiar quem está começando.”