Psiquiatria forense estabelece os limites da normalidade mental e da loucura: “o condutopata é sempre egoísta”, afirma Guido Palomba

A empatia, a identidade com o outro, o sentimento de compaixão, de piedade, de altruísmo são expressões que se encontram fora do entendimento de psicopatas, ou condutopatas, que protagonizam crimes. Segundo o psiquiatra forense Guido Palomba, essas pessoas “só pensam no que interessa a elas e nada mais, o que faz com que sejam absolutamente egoístas”.
Palomba palestrou na manhã desta quinta-feira (11) sobre o tema “Conceito de normalidade mental existe? Qual é?”, no primeiro dia de trabalhos do 4º Congresso de Medicina Geral da Associação Médica Brasileira (AMB), realizado no Anhembi, em São Paulo.
O evento foi coordenado pelo presidente da AMB, Cesar Eduardo Fernandes, que destacou o “brilhantismo” da abordagem de Palomba. “A mim, o que mais me encanta é um médico falar como médico. Há muitas ferramentas, mas nós não somos vítimas dessas ferramentas”, afirmou, em crítica aos protocolos de diagnóstico, que atualmente levam por exemplo a um excesso de classificações de pessoas como autistas.

A psiquiatria forense é uma especialidade que auxilia o sistema de justiça e seus especialistas realizam perícias para avaliar a capacidade mental de pessoas envolvidas em processos judiciais. O médico Guido Palomba é referência nesse campo. Ele atuou em casos de grande repercussão, como os de Suzane Von Richthofen, a chacina da família Bovo Pesseghini, em 2013, e o caso de tortura e homicídio do menino Henry Borel, em 2021, pelo ex-vereador do Rio de Janeiro Jairo Souza Santos Júnior (Dr. Jairinho).
Na sua exposição, Palomba fez uma retrospectiva da abordagem de corpo e alma na história da medicina para defender que é preciso lidar com o ser humano integral. Ele também explicou que entre a doença mental, como a esquizofrenia, e a pessoa normal, sem patologias de estreitamento da consciência, há um espaço intermediário, ou fronteiriço, onde se inserem as pessoas que têm comportamento anômalo, sem os freios éticos e morais que no dia a dia guiam as nossas escolhas.
Esse é o caso de psicóticos, ou condutopatas, que a princípio parecem seguir os padrões das normas sociais de comportamento, já que mantêm laços com a realidade.
“É fácil saber o que é um doente mental para dar um diagnóstico”, afirmou, referindo-se ao fato de que essa pessoa rompe com os ditames da realidade, escapando para delírios de perseguição, por exemplo, entre outras possibilidades, que nada têm a ver com a situação vivida.
Já no caso do psicótico ou do condutopata, como prefere Palomba, falta a consideração do outro, ou da empatia que regula as relações sociais. Essa falta de referência ao outro faz com que o condutopata não tenha arrependimento dos crimes cometidos. “Ele joga a culpa de seus atos no outro”, afirma o médico.
Palomba afirmou que essa ausência de culpa foi patente no caso de Suzane Von Richtofen que depois de matar os pais a pauladas com o auxílio de “dois laranjas” foi para o motel relaxar e beber vinho. Outro exemplo, lembrou, foi o caso de Elize Araújo Kitano Matsunaga, que esquartejou o marido e ao transportar o corpo em seu carro em alta velocidade para ocultá-lo foi abordada um guarda de trânsito, que não percebeu nada em função de sua insensibilidade e frieza. “São pessoas geladas”, afirmou.
Para o médico, os crimes de condutopatas e doentes mentais são sempre bizarros. É um universo bastante distinto daquela pessoa que, por exemplo, não tem dinheiro, tem fome e vai bater uma carteira, ou algo que o valha, para resolver sua sobrevivência.
Critico também ao excesso de domínio de protocolos que norteiam os diagnósticos de sanidade mental, Palomba termina com uma referência ao psiquiatra e psicoterapeuta Carl Gustav Jung (1875-1961): “Domine todas as técnicas, mas quando tocar uma alma humana, seja apenas uma alma humana”.
