Especialistas defendem que prática de corrida de rua com auxílio médico é estratégica para promover a saúde e evitar lesões4

São Paulo – Os especialistas que participaram da discussão sobre ‘Medicina e exercício do esporte 1’ na manhã deste primeiro dia de trabalhos do 4º Congresso de Medicina Geral da Associação Médica Brasileira (AMB), realizado no Anhembi, em São Paulo, abordaram três instâncias que estão envolvidas na prática de corrida de rua: riscos de lesões; RED-S (Relative Energy Deficiency in Sport, ou Deficiência Energética Relativa no Esporte); e administração de suplementos. Todos concordaram que a prática de corrida proporciona melhores resultados se o paciente tem um médico como parceiro para ajudá-lo e evitar problemas de saúde.
A médica ortopedista e especialista em medicina esportiva Ana Paula Simões defende que “todos podem correr”. “A gente sabe que há uma nova epidemia de corrida nas ruas. São Paulo chega a ter três ou quatro eventos por fim de semana. As pessoas que adotam a prática se dizem apaixonadas em busca de endorfina e ganhos secundários”, afirmou.
Mas ela destacou que junto com a prática vem as lesões. “Vejo muito isso. Até 50% dos atletas vão se lesionar. E é preciso dar atenção para quem se inicia no esporte. Uma inflamação, por exemplo, alerta que há um desequilíbrio no corpo”.
A incidência de lesão acaba sendo maior nos novatos e na mulher, segundo a ortopedista. “Isso é epidemiologia. Existe muita lesão no joelho. Há também a canelite (síndrome do estresse tibial medial), que pode evoluir para fratura por estresse. Para a pessoa praticar a corrida, temos de olhar primeiro para os fatores de risco. E tomar cuidado com o discurso do paciente que quer um resultado muito breve”, disse.
O médico Victor B. Soraggi, que trabalha atualmente no futebol profissional do Palmeiras, abordou a questão da RED-S, uma síndrome causada pela falta de energia no organismo. O problema ocorre quando a ingestão de calorias não é suficiente para cobrir o alto gasto com os exercícios e manter as funções vitais essenciais do corpo.
Soraggi diz que a fadiga é uma queixa do ser humano: “Pode influenciar qualquer atividade, porque a performance fica cada vez pior, não só no esporte, mas também nas ações diárias”. “Essa queixa pode ser um aviso inicial para procurar um auxílio. Nesse momento, é importante ver como a fadiga está relacionada à carga de treinamento. Na prática do esporte, o corpo precisa ter estratégia de recuperação. Não se pode deixar passar o sinal de alarme”, afirmou.
Essa síndrome é complexa e compromete as funções psicológica e corporal. Na mulher é mais comum, mas não é exclusiva. A maioria das vítimas são do sexo feminino.
O médico Guilherme Dalcin Dilda, pós-graduado Fisiologia do Exercício e Biomecânica pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia da FMUSP, falou sobre a administração de suplementos para a prática da corrida. “É preciso compreender a hierarquia das necessidades nutricionais do atleta frente a fatores como alimentação, hidratação, sono e progressão do treino”, afirmou. Ele defendeu que o balanço energético é a principal prioridade na orientação do paciente. “E não adianta pensar no suplemento se a alimentação não está balanceada”, referindo-se ao equilíbrio entre carboidratos, proteínas e gorduras.

O médico Romullo Capello Teixeira, coordenador da mesa e diretor cultural da AMB, destacou que a anamnese é primordial para a orientação do exercício físico. “Temos de obedecer a essência da medicina. Temos também de evitar o risco de doping e considerar isso em função da prescrição, temos de ter cuidado. Todos os elementos devem ser considerados com critério”, finalizou.