Especialistas defendem estratégias personalizadas contra dependências químicas e o vício em apostas online

A crescente complexidade dos transtornos relacionados ao uso de substâncias e das dependências comportamentais exige que os médicos estejam preparados para identificar sinais precoces, compreender os múltiplos fatores envolvidos e oferecer abordagens terapêuticas cada vez mais individualizadas. O tema foi debatido durante o segundo dia do 4º CBMG, promovido pela Associação Médica Brasileira (AMB), que termina amanhã (13/6).
Sob coordenação do Dr. Rafael Mayoral Reichert, diretor financeiro da Associação Paulista de Psiquiatria, o painel reuniu especialistas para discutir desde os avanços científicos na compreensão da dependência química até os desafios impostos pela popularização das apostas esportivas online e o manejo de pacientes em situações complexas.
Dr. Vinicius Oliveira de Andrade, secretário-geral da Comissão de Dependências da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), destacou a transformação do entendimento médico sobre os transtornos por uso de substâncias ao longo das últimas décadas. Segundo ele, comportamentos que antes eram frequentemente interpretados sob uma perspectiva moral hoje são compreendidos a partir de mecanismos biológicos, psicológicos e sociais que interagem de forma contínua.

O especialista explicou que o consumo de álcool e outras drogas geralmente se inicia associado à busca por prazer, mas, com a progressão do quadro, passa a ser impulsionado pela necessidade de aliviar sofrimento emocional, ansiedade e sintomas de abstinência. Ele ressaltou ainda que a dependência deve ser encarada como uma condição multifatorial, exigindo tratamentos que combinem intervenções farmacológicas, acompanhamento psicológico, suporte social e estratégias de redução de danos.
“Precisamos entender que o paciente é uma pessoa e não apenas um diagnóstico. Quanto mais individualizado for o tratamento, melhores tendem a ser os resultados”, afirmou.
A discussão também abordou o crescimento acelerado das apostas esportivas online e seus impactos na saúde mental. Dr. Hermano Tavares, ex-vice-coordenador de Saúde Mental do Projeto Região Oeste da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), alertou para o aumento dos casos de transtorno do jogo associados à ampla oferta de plataformas digitais.
O psiquiatra lembrou que a regulamentação do setor ampliou significativamente o acesso às apostas e observou que a combinação entre disponibilidade permanente, publicidade intensa e tecnologias digitais criou um ambiente propício ao desenvolvimento de comportamentos compulsivos.
“A aposta online se tornou a grande vilã da atualidade. Os lucros são privatizados, mas os custos sociais acabam sendo compartilhados por toda a sociedade”, destacou.
Segundo ele, estimativas apontam que o Brasil possui cerca de 28 milhões de apostadores e que aproximadamente um em cada cinco usuários pode desenvolver dependência, proporção comparável à observada em algumas drogas ilícitas. O especialista enfatizou que o transtorno do jogo é uma condição tratável, mas reforçou a importância de medidas preventivas para conter o avanço do problema.
O Dr. Quirino Cordeiro, professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e ex-coordenador de Saúde Mental do Ministério da Saúde, trouxe reflexões sobre o gerenciamento de pacientes com dependência de álcool, maconha e outras drogas que apresentam necessidades mais complexas de cuidado. Ele abordou as estratégias voltadas ao fortalecimento da autonomia do paciente, à construção de vínculos terapêuticos e à oferta de suporte contínuo, respeitando as particularidades de cada caso.
No debate, os especialistas defenderam uma atuação integrada entre diferentes serviços de saúde e destacaram a importância de estruturas capazes de garantir acompanhamento prolongado, especialmente para pessoas em situação de maior vulnerabilidade.
Ao longo da discussão, prevaleceu a avaliação de que o enfrentamento das dependências químicas e comportamentais passa por uma visão ampla do paciente, combinando conhecimento científico, escuta qualificada e estratégias terapêuticas construídas de forma individualizada.