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Novas possibilidades ampliam as perspectivas contra o câncer colorretal

No do século passado, o diagnóstico de câncer de reto frequentemente levava a cirurgias mutiladoras, com impacto definitivo na qualidade de vida dos pacientes. Esse cenário vem mudando nas últimas décadas, impulsionado por avanços cirúrgicos, terapêuticos e diagnósticos que reposicionam o tratamento da doença. Essa transformação foi apresentada pelo Dr. Raul Cutait, cirurgião oncológico do aparelho digestivo, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e referência na área, durante conferência dedicada ao tema no 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral (CBMG), da Associação Médica Brasileira (AMB).

Com a estimativa de cerca de 50 mil novos casos registrados por ano no Brasil, o câncer colorretal permanece entre os tumores mais frequentes no país. Paralelamente, cresce a atenção da comunidade médica para uma mudança relevante no perfil epidemiológico da doença, com aumento dos diagnósticos em pacientes com menos de 50 anos.

“O número de casos em pessoas mais jovens vem aumentando de forma importante, o que levou à redução da idade recomendada para o início do rastreamento para 45 anos”, afirmou o Dr. Raul Cutait.

A conferência destacou que o manejo do câncer colorretal hoje é marcado por uma abordagem cada vez mais individualizada, baseada em estadiamento preciso e decisão terapêutica integrada. Exames como colonoscopia, tomografia e ressonância magnética têm papel central na definição da extensão da doença e na escolha do tratamento mais adequado.

Embora a cirurgia siga como pilar fundamental, sua função e seus objetivos mudaram significativamente. Técnicas mais modernas e estratégias combinadas passaram a priorizar não apenas a retirada do tumor, mas também a preservação funcional e a redução de sequelas.

“Passamos de um modelo centrado exclusivamente na ressecção para uma abordagem em que preservar o reto e a qualidade de vida do paciente se tornou parte essencial da decisão terapêutica”, explicou o Dr. Raul Cutait.

O especialista lembrou que, até poucas décadas atrás, a amputação do reto era frequentemente necessária. Hoje, a incorporação da radioterapia, quimioterapia e imunoterapia contribuiu para reduzir a necessidade de procedimentos mais agressivos e diminuir as taxas de recidiva local.

Outro ponto destacado foi a mudança no prognóstico de pacientes com doença metastática. Se antes esse cenário era associado a ausência de perspectiva de cura, hoje parte desses casos pode evoluir de forma diferente, dependendo da resposta ao tratamento e da seleção adequada de terapias.

“Em situações bem selecionadas, pacientes com metástases podem alcançar taxas de cura entre 20% e 30%. Isso era algo impensável no passado”, afirmou.

A imunoterapia também foi apresentada como um dos campos mais promissores na oncologia colorretal, com resultados relevantes em subgrupos específicos de pacientes, reforçando a tendência de tratamentos cada vez mais personalizados.

No campo da atenção médica, Dr. César Eduardo Fernandes, presidente da AMB, ressaltou a importância da atualização constante dos profissionais diante da rápida evolução do conhecimento científico.

“Esse encontro tem como objetivo levar conhecimento atualizado ao médico generalista, que atua na linha de frente e tem papel fundamental na condução inicial dos pacientes”, disse.

Ele destacou ainda que o ritmo das mudanças na prática médica exige integração entre especialistas e atenção primária.

“As condutas que vão orientar o tratamento nos próximos anos já estão sendo construídas agora. O médico precisa acompanhar essa evolução para oferecer o melhor cuidado possível”, completou.

Ao abordar o papel do médico da atenção básica, Dr. Raul Cutait reforçou a importância do reconhecimento precoce dos sinais de alerta.

“O médico generalista precisa estar atento a alterações do hábito intestinal, sangramentos e sintomas persistentes. O encaminhamento oportuno é decisivo para o desfecho do paciente”,  concluiu.