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Aberto 24 horas: o vício das apostas online que adoece milhares de brasileiros

As bets levaram R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras em 2025 e deixaram 1,4 milhão de pessoas com transtorno do jogo, segundo levantamentos do Comsefaz e da Unifesp.

Em dezembro de 2025, o governo federal colocou no ar uma plataforma para que o próprio apostador bloqueasse o acesso a todos os sites de apostas autorizados no país, bastando informar o Cadastro de Pessoa Física (CPF). Até agosto de 2026, mais de 1 milhão de pessoas já tinham pedido a autoexclusão, de acordo com o Ministério da Saúde. Só no período da Copa do Mundo, entre 11 de junho e 19 de julho, foram 387.645 solicitações. Entre os que pediram a autoexclusão, 35% apontaram a perda de controle sobre o jogo como motivo para o bloqueio.

No mesmo movimento, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou de 600 para até 100 mil os teleatendimentos mensais em saúde mental voltados a quem tem problemas com jogos e apostas. O serviço começou como projeto-piloto em março de 2026 e cresceu em cinco meses. 

O TAMANHO DO PROBLEMA

As famílias brasileiras deixaram R$ 62,5 bilhões nas plataformas de apostas em 2025. Esse é o valor que saiu das contas das pessoas para as bets e não voltou, já descontado tudo o que as plataformas devolveram aos apostadores. O cálculo está na 3ª edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros , produzido pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) com o Centro Internacional Celso Furtado, a partir de dados do Banco Central. O montante equivale a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias, e o boletim apresenta o número como uma estimativa.

Já o custo em saúde tem outra conta. O dossiê ‘A saúde dos brasileiros em jogo’, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), da Umane e da Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental (FPSM), estima em R$ 38,8 bilhões por ano o prejuízo social que as apostas causam ao país. Desse total, R$ 30,6 bilhões estão ligados diretamente à saúde, sendo R$ 17 bilhões em mortes por suicídio, R$ 10,4 bilhões em perda de qualidade de vida provocada pela depressão e R$ 3 bilhões no tratamento médico. 

A APOSTA E OS DANOS À SAÚDE

O transtorno do jogo é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e classificado na CID-11 sob o código 6C50. Também aparece no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), no mesmo capítulo das dependências químicas. Apostar acaba ativando os circuitos cerebrais de recompensa de forma semelhante ao álcool e a outras drogas, o que ajuda a explicar por que a vontade cresce em vez de se satisfazer.

O retrato brasileiro está no Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Cerca de 10,9 milhões de pessoas, ou 7,3% da população de 14 anos ou mais, apostam de maneira que já produz prejuízo pessoal, profissional ou financeiro. Dentro desse grupo, 1,4 milhão preenche os critérios clínicos do transtorno do jogo. 

Entre quem aposta em plataformas on-line, 66,8% já apresentam sinais de risco ou de jogo problemático contra 26,8% de quem aposta em modalidades físicas, como o jogo do bicho. Os adolescentes de 14 a 17 anos são os mais atingidos: 55,2% estão na zona de risco, mesmo com a proibição para menores de idade. 

O SUS já sentiu o efeito. Entre janeiro de 2018 e maio de 2025, a rede pública registrou 10.553 atendimentos por jogo patológico e por problemas relacionados a apostas, alta de 104% no período. E esses são só os casos que chegaram a um serviço de saúde.

OS SINAIS DE ALERTA

O que define o diagnóstico é a perda de controle e o prejuízo que ela causa, e não o valor gasto ou a frequência das apostas. Pelos critérios do DSM-5, é preciso apresentar ao menos quatro dos nove comportamentos abaixo no período de 12 meses.

– Precisar de apostas cada vez mais altas para sentir a mesma emoção
– Ficar irritado ou agitado ao tentar diminuir ou parar de jogar
– Tentar controlar o comportamento várias vezes, sem sucesso
– Pensar nas apostas o tempo todo, inclusive em como arrumar dinheiro para jogar
– Jogar em momentos de tensão, ansiedade, culpa ou tristeza
– Voltar a apostar para tentar recuperar o que perdeu
– Mentir para terceiros e esconder o envolvimento com o jogo
– Ter prejuízo em relacionamentos, estudos ou trabalho por causa das apostas
– Precisar de ajuda financeira de outras pessoas para sair do aperto causado pelo jogo

O QUE DIZ A ESPECIALISTA

Para cada pessoa com problema de jogo, outras quatro ao redor passam a ter problemas de saúde, estima a psiquiatra Carla Bicca, coordenadora da Comissão de Psiquiatria das Adições da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em entrevista à Associação Médica Brasileira (AMB). 

A especialista também cita a perda nutricional dentro de casa, sono ruim e exames alterados. “Tem a humilhação, tem a vergonha, tem a culpa, tem a tristeza”, acrescenta. Nos casos mais graves, o risco de suicídio aumenta porque a dívida se acumula e a pessoa não enxerga solução.

A médica destaca ainda que a procura por ajuda quase nunca parte do apostador e costuma vir da família. Com a dependência instalada, o tratamento começa pelo bloqueio do CPF e por aplicativos que impedem o acesso às plataformas, com terapia e grupos de apoio. Em alguns casos, é preciso internar. “A família tem que procurar ajuda para entender que isso é uma doença, é grave, é um problema”, afirma.

Para ela, é no consultório que o quadro pode ser interrompido mais cedo. “Todas as áreas da saúde devem começar a prestar mais atenção nisso, questionar mais os seus pacientes, porque quanto antes a pessoa procurar ajuda, menos grave vai estar o seu envolvimento com o jogo”.