Quem está decidindo os rumos da Medicina enquanto o médico está ocupado em exercer a Medicina?

Por Dr. Rômulo Capello Teixeira, médico especialista e diretor cultural da AMB
Quem está decidindo os rumos da Medicina enquanto o médico está ocupado em exercer a Medicina?
A pergunta parece simples, mas contém uma questão que merece ser examinada com mais profundidade. O médico é formado para cuidar, mas sua formação e seu exercício profissional estão inseridos em uma realidade que mudou profundamente.
A expansão da oferta de cursos de Medicina, as transformações na formação médica, os desafios da residência, a precarização das relações de trabalho, a pressão por produtividade, as mudanças nos modelos de remuneração e a incorporação acelerada de novas tecnologias já produzem efeitos concretos sobre a trajetória profissional e sobre a qualidade da assistência.
Não estamos falando, portanto, de questões periféricas à Medicina. Estamos falando das condições em que o médico será formado, iniciará sua carreira, construirá sua trajetória e exercerá a profissão ao longo da vida.
A Medicina não se transforma apenas dentro da sala de aula, do laboratório, do hospital ou do consultório. Ela também é transformada pelas decisões que definem quem será formado, em que condições será formado, onde encontrará espaço para exercer a profissão, como será remunerado, quanto tempo terá para atender e quais serão as condições concretas de seu trabalho.
Essas decisões não são acessórias à prática médica. Elas interferem na própria possibilidade de exercer a Medicina nos termos em que aprendemos a exercê-la.
Essa talvez seja uma das contradições mais importantes do nosso tempo: o médico pode dominar cada vez mais o conhecimento necessário para cuidar de seu paciente e, simultaneamente, conhecer cada vez menos os processos pelos quais se definem as condições desse cuidado.
Não se trata de diminuir a importância da assistência. Ao contrário. A assistência continua sendo o centro da Medicina. Mas a experiência contemporânea mostra que a excelência clínica, isoladamente, não é suficiente para responder aos desafios que envolvem a profissão. As condições de trabalho, a organização dos serviços e a pressão por produtividade podem interferir diretamente no tempo disponível para ouvir, examinar, raciocinar e decidir.
A Medicina é uma profissão profundamente técnica, mas as decisões que determinam seu futuro não são exclusivamente técnicas. Elas envolvem escolhas institucionais, econômicas, sociais e políticas. E não há contradição entre reconhecer essa realidade e preservar a independência científica e ética que deve orientar o exercício profissional.
O médico não precisa transformar-se em político profissional para compreender política de saúde. Não precisa abandonar a assistência para participar de uma discussão institucional. Não precisa deixar de ser especialista para ampliar sua compreensão sobre aquilo que está acontecendo ao redor de sua especialidade.
O que não parece razoável é imaginar que essas decisões possam ser delegadas indefinidamente a outros e, depois, esperar que seus resultados correspondam necessariamente às necessidades da profissão e da assistência.
A ausência também produz consequências. Quando os médicos não acompanham determinadas discussões, quando não conhecem os processos decisórios ou quando deixam de ocupar espaços legítimos de representação e debate, não suspendem essas decisões. Elas continuam sendo formuladas, discutidas e implementadas.
E é justamente aí que a pergunta inicial ganha outra dimensão: quem está decidindo os rumos da Medicina?
Não se trata de identificar culpados ou de estabelecer uma disputa entre médicos e outros setores da sociedade. As decisões sobre saúde precisam, evidentemente, considerar múltiplos interesses e conhecimentos. Mas seria igualmente inadequado imaginar que aqueles que vivem cotidianamente a prática médica possam permanecer afastados de discussões que terão impacto sobre sua profissão e sobre o cuidado oferecido à população.
A participação, nesse sentido, não deve ser compreendida como uma obrigação de ocupar cargos. É antes uma questão de responsabilidade profissional e de consciência sobre o lugar que a Medicina ocupa na sociedade.
O associativismo é uma das expressões dessa responsabilidade. Quando médicos se organizam, a experiência individual deixa de ser apenas experiência individual e passa a integrar uma construção coletiva. É nesse encontro entre a realidade cotidiana do consultório e a capacidade de representação institucional que muitas questões da profissão conseguem ganhar dimensão pública.
Mas essa participação precisa estar à altura da complexidade da Medicina contemporânea. Não basta defender posições previamente estabelecidas. É necessário estudar, produzir argumentos, ouvir diferentes perspectivas e compreender as consequências das decisões que se pretende influenciar.
Talvez essa seja uma das responsabilidades mais importantes das atuais gerações de médicos: não apenas preservar o conhecimento que receberam, mas compreender as forças que estão transformando a profissão.
A inteligência artificial, as novas tecnologias e os diferentes modelos de organização da assistência fazem parte dessa transformação. Não devem ser tratados nem como ameaça inevitável, nem como solução automática. A questão central continuará sendo o que a Medicina pretende preservar enquanto incorpora novas possibilidades. Conhecimento, experiência, observação clínica, responsabilidade e ética permanecem fundamentos que não podem ser relativizados pela velocidade da inovação.
No fim, a questão não é exigir que todos os médicos ocupem os mesmos espaços. É reconhecer que uma profissão que não participa das decisões que a transformam corre o risco de tornar-se apenas destinatária dessas decisões.