GQ Saúde - Ozempic pode ajudar a parar de fumar? Entenda o que mostram os testes clínicos para tratamento contra tabagismo
Ao redor do mundo, cientistas se movem para entender se a semaglutida, popularizada pelo Ozempic, poderia ser útil também em casos de tabagismo
Panaceia, aquela capaz de todas as curas, era a filha de Asclépio, deus grego da medicina. Com o tempo, seu nome também passou a descrever toda fórmula que resolveria sozinha os males do corpo: os historiadores Robert e Michèle Root-Bernstein citam o exemplo das sanguessugas no século 18, receitadas para qualquer enfermidade na qual a manipulação do sangue parecia relevante.
Hoje, uma leitura descuidada sobre a semaglutida (composto popularizado pelas canetas emagrecedoras) pode levar a uma impressão similar: que o remédio, antes limitado a pacientes diabéticos e hoje receitado também para obesidade, pode resolver outros problemas. Uma microdosagem controlaria o peso em situações não-clínicas, por exemplo, ou teria efeito em distúrbios de saúde mental.
Você deve ter ouvido falar, inclusive, sobre um suposto impacto da semaglutida na difícil busca de largar o cigarro. Pesquisas a respeito dessa possibilidade partem de outros estudos, realizados já há alguns anos, a respeito do que o remédio faz sobre outros vícios (em particular o alcoolismo).
Cientistas acreditam que ele interage com neurônios localizados no córtex insular, região do cérebro que tem influência na sensação do anseio e um papel no controle da abstinência. Ricardo Meirelles, coordenador da Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira (AMB), comenta outro mecanismo potencial: “Existe uma liberação muito importante da dopamina no sistema causada pela nicotina do cigarro. Parece que a semaglutida reduz essa liberação e a pessoa então não teria tanta vontade de fumar.“
Artigo publicado este mês na revista Biological Psychiatry diz ser impossível firmar uma relação de causa e efeito no momento – que quem usa a caneta sofra menos para largar o fumo, ou passe por menos recaídas, por causa dela. Mas tem gente se movendo para saber mais. O mesmo trabalho aponta para sete testes clínicos em andamento nos EUA, Canadá e China. “Há trabalhos em que alguns pacientes pararam de fumar. Tem que avaliar o porquê disso, mas é uma coisa promissora”, comenta Meirelles.
O Ozempic (para a diabetes) e o Wegovy (para obesidade) são tratamentos custosos, longe de serem acessíveis. Mas existe motivo para ânimo a respeito de alternativas para o tabagismo. “O rol de medicamentos para o quadro ainda é escasso”, conta o coordenador.
No Brasil, quem quer se desfazer do cigarro tem acesso ao adesivo transdérmico e à goma de mascar, ambas reposições mais seguras da nicotina, além da bupropiona, que interage com receptores de dopamina. Nos Estados Unidos, o fitoterápico citisiniclina, ainda em processo de aprovação, pode se tornar mais um reforço farmacológico no futuro.
Mas, nas eternas palavras de Adoniran Barbosa, “tem outra coisa”: 80 a 90% das pessoas que largam o fumo também ganham quilos. “A nicotina aumenta a taxa metabólica basal e o gasto de energia, contribuindo para menor peso corporal entre pessoas que fumam”, diz o relatório da Biological Psychiatry.
Por um lado, sai de cena um fator de risco relevante para doenças cardiovasculares – “o estudo internacional Interheart identificou um risco aproximadamente três vezes maior de infarto entre fumantes ativos quando comparados a quem nunca fumou”, aponta Daniel Petlik, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
Por outro lado, um aumento da massa gorda, principalmente na barriga, vira outra questão. “Em excesso, a gordura visceral favorece um estado de inflamação crônica de baixo grau, resistência à insulina, alterações do colesterol e dos triglicérides, hipertensão arterial e disfunção vascular”, continua Petlik.
“Muitas pessoas têm receio de abandonar o cigarro por medo de ganhar peso”, comenta o especialista. “Medicamentos que atuam sobre o controle do apetite poderiam, em situações específicas, ajudar a enfrentar essa dificuldade, embora isso ainda não justifique seu uso rotineiro para essa finalidade.”
FONTE: GQ Saúde