Neurologia na Emergência: especialistas apresentam atualizações sobre AVC, neuroinfecções e epilepsia no CBMG 2026
Com foco na qualificação da assistência e na discussão de condutas práticas para situações de alta complexidade, o 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral da Associação Médica Brasileira (CBMG 2026) promoveu a sessão “Neurologia na Emergência”, reunindo especialistas para abordar temas fundamentais da neurologia aplicada ao atendimento de urgência e emergência. A atividade foi coordenada pelos médicos Delson José da Silva e Andre Sobierajski dos Santos, responsáveis pela condução dos debates e pela integração dos conteúdos apresentados.
As emergências neurológicas estão entre os cenários clínicos que mais exigem rapidez diagnóstica. Ao abordar o tema “Doenças cerebrovasculares – Atualização em Acidente Vascular Cerebral (AVC) Isquêmico”, a Dra. Eva Carolina Rocha Ramos destacou que o AVC é a segunda principal causa de morte no mundo e responde por cerca de 10% de todas as internações.
Segundo a especialista, a mais recente diretriz publicada em 2026 traz avanços importantes, entre eles a possibilidade de atendimento móvel especializado para AVC, especialmente com o objetivo de reduzir o tempo até o tratamento e evitar a progressão da trombose.
“Uma recomendação nova é a unidade móvel de AVC, com equipe treinada e aparelho próprio”, afirmou. “Também é importante identificar se há suspeita de oclusão de grande vaso, pois, nesses casos, a avaliação e a conduta são diferentes”, complementou.
Outra novidade destacada foi a utilização da tenecteplase, uma versão modificada da alteplase, que tem se mostrado eficaz no tratamento agudo do AVC e passou a ser recomendação Classe I. “Esse medicamento já era utilizado no tratamento agudo do infarto do miocárdio e agora também tem indicação para o AVC agudo”, explicou.
Sobre a decisão de realizar ou não a trombólise, a especialista ressaltou que, com o avanço das técnicas de neuroimagem, tornou-se possível avaliar com maior precisão a janela terapêutica para o procedimento. Já nos casos de oclusão de grande vaso, a trombectomia mecânica, realizada por meio de cateterismo, permanece como uma importante estratégia terapêutica.
Neuroinfecção: abordagem ao paciente com meningoencefalite
Ao abordar o tema, o Dr. Augusto Cesar Penalva de Oliveira discutiu os principais desafios relacionados ao reconhecimento precoce das neuroinfecções, à investigação diagnóstica e ao início oportuno do tratamento.
O especialista apresentou as diferentes formas de encefalite, que podem se manifestar de maneira focal, multifocal ou difusa, além de quadros de encefalomielite e meningoencefalite.
“Há uma divisão dos agentes baseada no padrão de resposta e nos achados tomográficos que demonstram essa inflamação”, explicou.
Segundo ele, aproximadamente 50% dos casos de encefalite no mundo permanecem sem etiologia definida. No Brasil, o aumento da atenção para essas condições ocorreu especialmente durante o surto associado ao nascimento de crianças com microcefalia e, posteriormente, durante a pandemia de SARS-CoV-2.
“Nos últimos 20 anos, tivemos importantes viroses no Ocidente, como a dengue, por exemplo. Além disso, o herpes é responsável por cerca de 75% dos casos de encefalite viral”, afirmou.
O especialista reforçou a importância da rapidez na condução dos casos. “Tempo é cérebro, e é preciso tratar o paciente da maneira mais apropriada possível”, destacou.
Segundo ele, embora haja um número crescente de doenças infecciosas, também houve avanços significativos na disponibilidade de marcadores diagnósticos.
Para concluir, ressaltou que a encefalite deve ser suspeitada em qualquer paciente que apresente febre associada a alteração neurológica aguda. Além disso, a punção lombar deve ser realizada, idealmente, nas seis primeiras horas, salvo contraindicações.
Epilepsia
O terceiro convidado da sessão foi o Dr. Lécio Figueira Pinto, que abordou a epilepsia e seu manejo no contexto das emergências, destacando que a condição está entre as principais causas de atendimento neurológico de urgência.
Segundo ele, a primeira abordagem deve seguir o protocolo CALMA:
C – Calma: manter a serenidade;
A – Afastar: retirar objetos que possam causar lesões;
L – Lateralizar: virar a pessoa suavemente de lado;
M – Monitorar: observar e registrar o tempo de duração da crise;
A – Acompanhar: permanecer ao lado do paciente até a recuperação.
O especialista observou que, muitas vezes, acredita-se que o paciente esteja vivenciando a primeira crise epiléptica da vida, quando, na realidade, episódios anteriores podem ter ocorrido sem reconhecimento adequado.
Durante a apresentação, foram discutidos aspectos essenciais da epilepsia no contexto da emergência, incluindo o manejo das crises convulsivas, a avaliação clínica e as condutas diante das principais situações de risco.
Ao encerrar sua participação, o médico reforçou que a epilepsia é uma condição frequente, cujo diagnóstico é essencialmente clínico. Os exames complementares auxiliam na investigação e no acompanhamento, mas não substituem a avaliação clínica.
Por fim, palestrantes e participantes participaram de um debate voltado à troca de experiências e ao aprofundamento dos temas apresentados, promovendo uma discussão prática sobre os desafios enfrentados pelos profissionais nos serviços de urgência e emergência.
A atividade reforçou o compromisso do CBMG 2026 com a educação médica continuada e com a disseminação de conhecimentos atualizados para o aprimoramento da assistência.