Alto contraste

Dia 3 CBMGNotícias

Home / Dia 3 CBMG / O sofrimento invisível por trás da formação e da profissão médica

O sofrimento invisível por trás da formação e da profissão médica

CBMG 13 06 2026 0338 scaled

No terceiro e último dia do 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral (CBMG), da Associação Médica Brasileira (AMB), um dos debates que mobilizou a atenção dos participantes trouxe para o centro da discussão uma realidade que atravessa a formação médica e acompanha muitos profissionais ao longo da carreira: os impactos da pressão constante sobre a saúde mental de estudantes de Medicina, residentes e médicos jovens.

Promovido pela Comissão Nacional do Médico Jovem (CNMJ) da AMB, o painel foi coordenado pela Dra. Monaí Barbosa Oliveira, membro titular da Comissão Nacional do Médico Jovem (CNMJ) da AMB e da Comissão Especial de Médicos Jovens da Associação Paulista de Medicina (APM), e pela Dra. Ana Cristina Ribeiro Zollner, responsável pela Residência Médica na Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e na Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). O debate discutiu como a combinação de altas expectativas, jornadas intensas, competitividade e responsabilidades crescentes tem contribuído para o aumento dos casos de esgotamento profissional, ansiedade, depressão e outros transtornos emocionais entre os profissionais da área.

CBMG 13 06 2026 0363 scaled

Dr. Gabriel Ramos Senise, presidente da Comissão de Médicos Jovens da APM e diretor da CNMJ da AMB, abordou os fatores relacionados ao esgotamento laboral e destacou que a própria cultura da Medicina ainda representa uma barreira para a busca de ajuda.

“O médico não costuma buscar apoio seja no RH, no Jurídico ou contar com a ajuda profissional de psicólogos e psiquiatras”, afirmou.

O especialista observou que o acolhimento entre colegas nem sempre acontece e que diferentes formas de assédio, muitas vezes sutis e difíceis de identificar, podem comprometer a saúde mental dos profissionais desde a graduação. Segundo ele, o burnout frequentemente está relacionado a ambientes que fragilizam a integridade emocional de estudantes e médicos.

Outro aspecto ressaltado foi a dificuldade de reconhecer condições inadequadas de trabalho. “O principal ponto de alerta é o médico não reconhecer a precariedade em que atua”, pontuou.

A pressão emocional que acompanha a formação médica também foi analisada pelo Dr. Sergio Pedro Baldassin, coordenador do Fórum Nacional de Serviços de Apoio ao Estudante de Medicina. Durante sua apresentação, ele destacou que parte dos estudantes já ingressa na graduação convivendo com algum grau de sofrimento psíquico e que as exigências da carreira podem intensificar esse quadro.

O palestrante chamou atenção para características frequentemente observadas entre estudantes e médicos, como elevado grau de cobrança pessoal, competitividade e dificuldade em admitir fragilidades emocionais. Nesse contexto, sintomas de ansiedade e depressão tendem a crescer ao longo da formação e dos primeiros anos de exercício profissional.

Também foi destacada a situação das mulheres médicas, grupo que apresenta índices mais elevados de depressão quando comparado à população feminina em geral, reforçando a necessidade de ações voltadas à prevenção e ao acompanhamento da saúde mental.

Os possíveis desdobramentos desse processo foram apresentados por Dr. Eduardo de Castro Humes, vice-coordenador da Comissão de Atenção à Saúde Mental do Médico da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Ele explicou que a exposição prolongada a fatores de estresse pode levar a quadros de burnout, ansiedade, depressão, afastamentos profissionais e outras consequências graves.

“O sofrimento não pode ser normalizado para não chegar aos desfechos negativos”, alertou.

Ao abordar os fatores associados ao adoecimento psíquico, o psiquiatra ressaltou que aspectos biológicos, psicológicos e sociais atuam de forma integrada e que a identificação precoce dos sinais de sofrimento é fundamental para evitar agravamentos. A discussão também enfatizou a importância das redes de apoio, do acolhimento institucional e da valorização de ambientes de trabalho mais saudáveis.

A mensagem que permeou todo o painel foi a de que a saúde mental dos médicos precisa deixar de ser um tema secundário dentro da própria profissão. Em um cenário de crescente demanda por assistência médica e de transformação do mercado de trabalho, os especialistas defenderam que reconhecer o sofrimento, estimular a busca por ajuda e fortalecer espaços de escuta são medidas indispensáveis para proteger quem dedica a vida ao cuidado do outro.