Obesidade passa a ser tratada pelo risco cardiovascular, defendem especialistas em congresso
Na manhã do primeiro dia do 4º Congresso de Medicina Geral da AMB, a palestra “Diretrizes 2025: Tratamento da Obesidade” discutiu uma mudança importante na abordagem da obesidade: a avaliação do paciente não deve se limitar ao Índice de Massa Corporal (IMC), mas considerar também o risco cardiovascular, as comorbidades e os possíveis benefícios clínicos de cada estratégia terapêutica.
Coordenada pelos médicos Itamar Ribeiro de Oliveira e Álvaro Avezum Junior, a sessão reuniu três especialistas para discutir as novas diretrizes, a farmacoterapia moderna e as metas de perda de peso capazes de modificar o prognóstico dos pacientes.
Na abertura, o Dr. Álvaro Avezum Junior destacou que o tema reúne três pontos centrais para a prática médica atual: alta prevalência, evidências científicas robustas e dificuldade de implementação no cuidado cotidiano. “O que eu preciso é de implementar o conhecimento existente”, afirmou.
IMC isolado não explica todo o risco do paciente
A primeira apresentação foi conduzida pela Dra. Viviane Zorzanelli Rocha Giraldez. A médica explicou que o IMC ainda tem valor populacional, mas apresenta limitações importantes quando aplicado à avaliação individual. Segundo a especialista, pessoas com o mesmo IMC podem ter distribuição de gordura e riscos clínicos muito diferentes. Por isso, medidas como circunferência abdominal, relação cintura-quadril e relação cintura-altura ajudam a compreender melhor o impacto da adiposidade sobre desfechos cardiovasculares.
“Mas, a nível individual, o índice de massa corpórea não explica tudo. Populacionalmente, ele nos dá muita informação, mas individualmente, um pouco menos”, afirmou a Dra.
A médica também reforçou que a obesidade se associa a diferentes tipos de doença cardiovascular, incluindo doença aterosclerótica, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e tromboembolismo venoso. Em sua apresentação, destacou ainda que pacientes de maior risco cardiovascular podem precisar de metas mais intensivas de perda de peso e de terapias com benefícios cardioprotetores. “Indivíduos absolutamente distintos com o mesmo índice de massa corpórea podem ter vistos muito diferentes”, completou.
Farmacoterapia moderna amplia possibilidades de tratamento
Na sequência, o Dr. Luciano Ferreira Drager abordou o avanço dos tratamentos farmacológicos, especialmente os agonistas de GLP-1 e os agonistas duais GIP/GLP-1, que vêm ganhando espaço pela capacidade de reduzir peso e atuar sobre outros mecanismos metabólicos.
O especialista ressaltou que a obesidade deve ser entendida como doença crônica, recidivante e multifatorial, o que exige acompanhamento contínuo e combate a soluções simplistas. Para ele, o tratamento farmacológico faz sentido especialmente diante da dificuldade de manter, no longo prazo, os resultados obtidos apenas com mudança intensiva de estilo de vida.
Ao comentar o estudo Select, o palestrante destacou que pacientes de alto risco com obesidade, mas sem diabetes, tratados com semaglutida apresentaram redução de eventos cardiovasculares combinados. A partir desse dado, ele defendeu que as novas terapias não sejam tratadas de forma banalizada. “É por isso que nós estamos pregando para pararem de falar sobre caneta emagrecedora. Não use esse termo”, disse. “A gente não pode banalizar chamando dessa forma pois é um tratamento muito, muito importante.”
Quanto emagrecer para mudar o prognóstico?
O terceiro tema foi apresentado pelo Dr. Marcio Corrêa Mancini, que detalhou recomendações das diretrizes para diferentes perfis de pacientes, considerando risco cardiovascular, presença de complicações e benefícios esperados.
O especialista explicou que a redução sustentável de pelo menos 5% do peso pode contribuir para a melhora de fatores de risco cardiovascular, como hipertensão e dislipidemia, além de ajudar a atrasar ou evitar o surgimento de diabetes tipo 2 em adultos com sobrepeso ou obesidade e risco moderado.
Para pacientes com risco cardiovascular moderado ou alto, a meta pode ser maior. “Então, deve ser considerada redução sustentável de pelo menos 10% do peso máximo já atingido na vida em indivíduos adultos com sobrepeso ou obesidade com risco de doença terasperiótica cardiovascular moderado ou alto para redução de eventos cardiovasculares”, afirmou O Dr. Marcio Corrêa Mancini.
O palestrante também destacou que metas devem ser individualizadas. Pacientes com IMC mais baixo, idade avançada, fragilidade ou obesidade sarcopênica podem ter alvos menores, enquanto pessoas com IMC mais elevado ou doenças passíveis de remissão podem se beneficiar de perdas mais expressivas. “Para a maioria dos adultos com obesidade, uma perda de pelo menos 10% é um alvo razoável”, resumiu.
Diretrizes reforçam tratamento individualizado
Por fim, a sessão mostrou que o tratamento da obesidade em 2025 passa por uma abordagem menos centrada no peso isolado e mais voltada à avaliação do risco global do paciente. O IMC segue como uma ferramenta útil, mas precisa ser combinado a outros indicadores clínicos para orientar decisões mais precisas.
Os especialistas também reforçaram que a perda de peso deve ser analisada pelo impacto sobre saúde, qualidade de vida e redução de risco cardiovascular. Nesse contexto, mudança de estilo de vida, farmacoterapia, acompanhamento contínuo e definição de metas individualizadas formam a base de uma estratégia mais efetiva para o manejo da obesidade.