Oncologia Clínica em foco: sessão do CBMG 2026 destaca o papel do médico generalista no acompanhamento do paciente com câncer
Os avanços no diagnóstico precoce e nos tratamentos oncológicos têm ampliado significativamente a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes com câncer. Ao mesmo tempo, cresce a importância da atuação integrada entre especialistas e médicos generalistas, especialmente no reconhecimento de complicações relacionadas ao tratamento, no acompanhamento longitudinal e na identificação precoce de eventos adversos que podem impactar a evolução clínica dos pacientes.
Com o objetivo de fortalecer essa integração e ampliar o conhecimento dos profissionais que atuam na atenção primária e em diferentes níveis da assistência, o 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral da Associação Médica Brasileira (CBMG 2026) promove a sessão “Oncologia Clínica”, dedicada à discussão de temas essenciais para o cuidado contemporâneo em oncologia.
A atividade foi coordenada pelos médicos Clarissa Seródio da Rocha Baldotto e José Aurillo Rocha, reunindo especialistas para apresentar conteúdos práticos e atualizados sobre os desafios do acompanhamento do paciente oncológico. Segundo eles, o câncer é a segunda doença mais comum no Brasil e o médico generalista precisa cada vez mais saber lidar com o tema.
A programação teve início com a palestra de Guilherme Harada, que abordou o reconhecimento das principais toxicidades associadas ao tratamento oncológico na atenção primária. A atenção primária é o primeiro ponto de contato. “Muitas vezes o centro oncológico é mais distante, a primeira ajuda que o paciente busca geralmente é o médico generalista”, diz.
Segundo ele, a febre não pode ser negligenciada, principalmente acima de 38ºC de temperatura e contagem de neutrófilos inferior a 500/mm3. “Outra associação de toxicidades gastrointestinais está na mucosite”, explica. “Náuseas e vômitos afetam de 70% a 80% de pacientes em quimioterapia”, acrescenta. Há, ainda, as toxicidades pulmonares, como a pneumonite, que precisa ser identificada precocemente; as toxicidades neurológicas como a neuropatia periférica, as toxicidades cardíacas, como a cardiotoxicidade. Ele mostra que têm as toxicidades dermatológicas, sistêmicas e tudo isso necessita de conhecimento para que tudo seja possível ser identificado.
Por fim, ele diz que é fundamental a educação do paciente e do familiar para que aconteça uma fácil comunicação e, assim, melhora do manejo para que todos estejam em comum acordo.
Na sequência, Dr. Rodrigo Ramella Munhoz abordou sobre os eventos adversos imunomediados relacionados às modernas terapias imunológicas, destacando porque o médico generalista deve estar atento a manifestações clínicas que podem acometer diferentes órgãos e sistemas e demandar diagnóstico rápido e manejo adequado.
Ele mostrou sobre sistema imune e o câncer e este tema é importante para o uso da imunoterapia. Segundo ele, qualquer órgão ou tecido sadio pode ser alvo de toxicidades imunomediadas, podendo ser eventos neurológicos, endócrinos, alterações hepáticas, pele, TG, por exemplo.
“Precisamos estar atentos aos eventos adversos no dia a dia”, afirma. “O pronto reconhecimento dos Eventos Adversos é necessário para a construção desse cuidado”, finaliza.
Encerrando as apresentações, Solange Moraes Sanches falou sobre o seguimento do paciente oncológico após o tratamento, com foco nas toxicidades tardias e crônicas que podem surgir meses ou anos após a terapia, reforçando a importância do acompanhamento contínuo e multidisciplinar.
Segundo ela, “efeitos tardios podem surgir após o término do tratamento e quem está na atenção básica, o generalista, precisa estar atento a esses efeitos”. Sendo assim, questões como fertilidade e função gonadal, cardiotoxicidade (pode surgir de 10 a 20 anos após o tratamento), toxicidade pulmonar e toxicidade neurológica, além de risco de segundos tumores primários.
Há, ainda, os impactos na saúde mental, como depressão e ansiedade. “Grande parte dos pacientes desenvolvem medo de recorrência. É um sistema silencioso que muitas vezes eles não expressam”, diz. “Faz parte do nosso trabalho como médico indicar grupos de apoios”, completa. Outra questão relatada é a toxicidade financeira, pois há dados que 62% dos pacientes relatam dificuldades financeiras graves e as consequências são abandono do tratamento e até não-adesão.
“As atividades físicas são indicadas durante e pós-tratamento, pois elas impactam para um melhor tratamento oncológico”, afirma a especialista. “Cuide do todo: corpo, mente e condições de vida”, finaliza.
Ao final da sessão, os especialistas participaram de um debate com os congressistas, promovendo a troca de experiências e a discussão de situações clínicas frequentes na prática assistencial. A atividade reforça a crescente relevância da oncologia no contexto da medicina geral e destaca o papel estratégico dos médicos não-especialistas no cuidado integral, longitudinal e humanizado dos pacientes com câncer.