Médicos disputam plantões por mensagem enquanto o Brasil bate recorde de escolas de medicina
Depois de seis anos de curso e uma dívida que pode passar de R$900 mil, o recém-formado entra num mercado sem vaga fixa, disputando plantão que paga cada vez menos.

Em grupos de WhatsApp espalhados por hospitais e clínicas de todo o país, alguém publica uma vaga de plantão avulso por um valor fixo. A palavra que decide quem fica com o trabalho é sempre a mesma: “pego”. Vence quem digita mais rápido.
Essa prática é comum e contraria a ideia de que virar médico é um caminho garantido para o dinheiro. Em 2025, o país chegou a 635,7 mil médicos registrados, segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, mais que o triplo do que tinha em 2000. O Brasil passou a ter também o segundo maior número de escolas de medicina do mundo, atrás somente da Índia. Quem termina a faculdade hoje disputa, antes de qualquer cargo fixo, uma noite de plantão.
Por trás dessa corrida por plantões há uma conta que poucos fazem. Seis anos de faculdade podem custar mais de R$ 900 mil. A categoria está há quase quatro décadas sem piso salarial. E a renda média que circula por aí é a que sustenta a fama do médico rico.
A fábrica de médicos
Em 2004, o Brasil tinha 143 cursos de medicina. Em 2025, são 494, sendo 80% deles privados, com quase 51 mil vagas por ano, contra pouco menos de 14 mil duas décadas antes. Só entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, o Ministério da Educação (MEC) autorizou 77 cursos novos e ampliou vagas em outros 20, somando 5.461 vagas em menos de dois anos, segundo levantamento da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) publicado pela Folha de S.Paulo em outubro de 2025.
A Justiça empurrou boa parte dessa expansão. Mais de 360 liminares obrigaram o MEC a analisar cursos fora do processo normal. Em fevereiro de 2026, o ministério revogou o edital que previa outros 95 cursos privados, quase 6 mil vagas a mais. Entidades médicas comemoraram, mas a mesma tentativa de conter a expansão, em 2018, tinha resultado em uma onda de liminares que abriu dezenas de cursos.
Hoje o Brasil, com 213 milhões de habitantes, segundo o IBGE, tem quase tantas escolas de medicina quanto a Índia, que tem mais de 1,4 bilhão. Com o número atual de vagas, a projeção é de 1,2 milhão de médicos em 2030, ou 5,3 por mil habitantes, quase o dobro da taxa atual, segundo a FMUSP.
O preço de entrar
Antes de disputar o plantão por mensagem, é preciso pagar para entrar na profissão. Medicina é o curso presencial mais caro do Brasil: a mensalidade média era de R$ 11 mil em 2025, quase dez vezes o valor médio dos demais cursos superiores, podendo passar de R$ 15 mil em algumas faculdades. Considerando reajustes semestrais de 2,5% ao longo de seis anos, quem começa pagando R$ 11 mil termina desembolsando mais de R$ 900 mil só em mensalidades.
Para quem não tem esse dinheiro, o caminho mais comum é o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Em julho de 2025, o MEC subiu o teto de financiamento para medicina de R$ 60 mil para R$ 78 mil por semestre, o maior entre todos os cursos.
A vaga pública é ainda mais cobiçada. A medicina concentra as maiores notas de corte do Sistema de Seleção Unificada (Sisu): a mais alta, na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), chegou a 856 pontos em 2025. Mesmo a mais baixa entre as federais, passou de 769 pontos. Na Universidade Federal da Bahia (UFBA), foram mais de 300 candidatos por vaga.
A conta continua na residência
Quem quer se especializar precisa passar pela residência médica, que dura de dois a cinco anos, dependendo da área. Nesse período, o médico já formado trabalha em hospital, atende pacientes e cumpre jornada de até 60 horas semanais, mas não recebe salário. Recebe bolsa.
Essa bolsa está parada em torno de R$ 4,1 mil desde 2022, sem reajuste. Dois projetos apresentados no Senado em abril de 2026 propõem elevar o valor para cerca de R$ 8 mil. Nenhum dos dois foi votado até agora.