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Sem piso salarial há décadas, médicos ganham bem menos do que sugere a renda declarada à Receita

O valor que sustenta a fama do médico rico soma todas as fontes de ganho e é puxado por uma minoria. Entenda a realidade financeira da profissão.

Foto: Magnific

Um estudo da Demografia Médica no Brasil apontou que os médicos brasileiros declararam renda média de R$ 36.818 por mês no Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF) referente a 2022. Com esse valor, a medicina fica entre as seis profissões mais bem pagas do país. Mas o número tem uma ressalva importante: ele não vem de folha de pagamento, e sim da declaração de Imposto de Renda, que reúne tudo o que o médico ganhou no ano.

O coordenador do estudo, Mário Scheffer, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), faz questão de separar as duas coisas: “Não fizemos um estudo de salário, mas sim de renda declarada no IR”, disse ele em entrevista ao portal Medscape, em agosto de 2025. A declaração soma salário, plantão, consultório, aplicação financeira e lucro de empresa. E é uma média, puxada para cima por quem ganha muito mais que a maioria.

Essa renda também está caindo. Em 2012, o valor equivalente girava em torno de R$ 39 mil por mês. Uma década depois, está menor, mesmo com o país acumulando quase 80% de inflação no período, segundo a revista Exame.

Hoje, uma fatia cada vez menor da categoria tem contrato formal, por causa do avanço da pejotização. Segundo o Portal Salário, com dados oficiais do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, um médico clínico tem salário mediano de R$ 8.961 por mês, para uma jornada de 24 horas semanais. Metade da categoria ganha menos que isso, considerando só o salário base, sem plantões ou adicionais.

Um Brasil, rendas diferentes

A renda média também esconde uma desigualdade regional. Em 2022, o Distrito Federal registrou uma das maiores rendas declaradas do país, R$ 44.663, enquanto o Maranhão registrou a menor, R$ 29.991. Entre as regiões, o Nordeste ficou com a menor média, R$ 33.970, cerca de 8% abaixo do valor nacional.

A desigualdade se repete na concentração de médicos. O Distrito Federal tem hoje pouco mais de seis médicos para cada mil habitantes, e o Maranhão, pouco mais de um. Por região, a proporção é de 3,77 médicos por mil habitantes no Sudeste, 3,44 no Centro-Oeste, 3,31 no Sul, 2,21 no Nordeste e 1,70 no Norte.

Boa parte da assistência que chega às cidades menores nem aparece nesses números. Uma pesquisa da Demografia Médica de 2020 mostrou que 27% dos médicos se deslocavam para atender em outra cidade em algum dia da semana, e outros 8% trabalhavam sempre em um município diferente de onde moravam.

Sem piso, sem chão

Enquanto a renda e a presença de médicos variam tanto de um estado para outro, falta uma referência mínima de remuneração. A Lei nº 3.999, de 1961, fixava o piso em três salários mínimos para 20 horas semanais, mas a Constituição de 1988 proibiu atrelar salários ao mínimo, e o valor nunca mais foi corrigido por lei. Hoje, pela leitura do Supremo Tribunal Federal (STF), esse piso equivaleria a cerca de R$ 3.636. 

Quem tenta preencher esse vazio é a própria categoria. A Federação Nacional dos Médicos (Fenam) calcula todo ano um piso de referência: para 2026, o valor é cerca de R$ 21 mil para 20 horas semanais. É apenas uma referência de negociação. Nenhum hospital, clínica ou plano de saúde é obrigado a pagá-lo.

No Congresso, há pelo menos três projetos de lei tentando criar um piso oficial, com valores que vão de cerca de R$ 11 mil a R$ 17 mil. O mais avançado, aprovado pelo Senado em junho de 2026, prevê aproximadamente R$ 13,6 mil e agora segue para a Câmara. Passados quase 40 anos, a discussão hoje é sobre qual desses valores é o certo.

Pejotização e esgotamento

Sem piso obrigatório, os médicos têm se organizado entre virar pessoa jurídica e manter vários empregos ao mesmo tempo. Hospitais e clínicas preferem contratar médicos como PJ. Nesse formato, o profissional abre uma empresa, mantém a mesma escala fixa e a mesma subordinação de um funcionário, mas perde férias remuneradas, 13º salário e FGTS.

O desgaste dessa rotina aparece nos números de saúde mental da categoria. Um estudo de 2016, de pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) com 180 médicos intensivistas de Porto Alegre, São Paulo, Salvador, Goiânia e Belém encontrou prevalência de burnout, o esgotamento profissional, em 61,7% deles. A exaustão emocional apareceu em 50,6% dos entrevistados.