DIRETOR DA AMB DISCUTE RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE E ÉTICA DURANTE EVENTOS EM PORTUGAL

Em agosto, à convite da presidência da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA), o Primeiro Tesoureiro da AMB, Miguel Roberto Jorge, integrou a programação do 19º Congresso Mundial de Psiquiatria, sediado em Lisboa, em Portugal. Doutor em Psicofarmacologia, Livre Docente em Psiquiatria Clínica e Professor Associado Aposentado do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) abordou temas como comorbidade, relação médico-paciente e ética em pesquisa.

O 19º Congresso Mundial de Psiquiatria, presidido pela psiquiatra australiana Helen Herrman, contou com mais de 70 atividades científicas sob o eixo temático “Psiquiatria e saúde mental: inspirações globais, ação localmente relevante”. O evento contou com mais 4000 participantes (mais de 300 brasileiros) e 140 palestrantes de todo o mundo, que apresentaram conhecimentos e estratégias trabalhadas em seus países no campo da psiquiatria. Ao longo dos três dias de debates, foram discutidos tópicos de áreas como psicopatologia, farmacoterapia, treinamento psiquiátrico, psiquiatria social, reabilitação e prevenção.

Além de suas apresentações, Miguel Jorge também presidiu os trabalhos de dois simpósios. Coordenador do Comitê de Ética em Pesquisa da UNIFESP, o pesquisador foi convidado a ministrar o simpósio sobre as especificidades da discussão ética em países de baixa e média renda. Durante sua apresentação, o especialista abordou os desafios da área, as expectativas dos pacientes, as problemáticas dos comitês de ética neste países e possíveis alternativas.

Já no simpósio dedicado a discussões sobre comorbidade, o pesquisador falou sobre a relação médico-paciente e sobre os cuidados que devem ser tomados em casos em que os indivíduos atendidos sofrem, simultaneamente, de doenças físicas e mentais.

Ética em pesquisa médica em países de baixa e média renda

Em um cenário de desigualdades globais no acesso a medicamentos e nos índices de mortalidade, Miguel Roberto Jorge traçou a participação de voluntários em pesquisas médicas como uma estratégia dos pacientes em busca de atenção e tratamentos a que não teriam acesso se não participassem de pesquisa. Essa prática demanda atenção especial a questões éticas, já que oferece diversos desafios aos pesquisadores, como – por exemplo – se o consentimento dado pelo participante é realmente livre.

Tópicos como os padrões locais de atendimento, as diferentes visões de autonomia e os problemas de compensação foram apontados por Miguel Jorge como exemplos de questões a serem observadas nesse sentido. Outros agravantes foram sinalizados, como a coerção, a divulgação inadequada, a falta de recursos, os gargalos burocráticos e os interesses financeiros por trás das pesquisas.

Miguel Jorge destacou ainda os desafios dos Comitês de Ética, que enfrentam, muitas vezes, a insuficiência da qualidade e da quantidade de tempo gasto nos processos de revisão. O especialista ressaltou a importância de se observar os princípios definidos no Conselho Nuffield de Bioética, em 2002, para pesquisas que se realizam em países de baixa e média renda: o dever de aliviar o sofrimento; a necessidade de mostrar respeito pelos seres humanos; e a importância de ser sensível às diferenças culturais e de não explorar os vulneráveis.

A relação médico-paciente no contexto de doenças comórbidas

No simpósio que tratou sobre comorbidade, Miguel Jorge, apontou a necessidade de a prática médica aliar o avanço científico à atenção ao paciente. Foi reforçada a necessidade de prestar apoio e de demonstrar compaixão aos indivíduos, especialmente em casos de multimorbidade, em que pacientes convivem com diversas doenças simultaneamente.

Segundo Miguel Jorge, os médicos devem identificar fatores de risco e a influência de fatores contextuais, além de usar diretrizes de intervenções específicas nos casos dessas pessoas. O especialista ainda apresentou um modelo de atendimento para pessoas com múltiplas doenças crônicas que valoriza o cuidado colaborativo centrado no paciente, com acompanhamento ativo e sustentado.

O professor reforçou dimensões cruciais para o tratamento de pacientes com comorbidade: respeito aos valores, preferências e necessidades expressas pelos pacientes; atenção coordenada e integrada; fornecimento de informação e educação; garantia de conforto físico e apoio emocional; e envolvimento da família e amigos no cuidado ao paciente.

Miguel Jorge ainda sinalizou as recomendações da Associação Médica Mundial no sentido de fornecer orientações aos médicos relacionadas aos tratamentos de pacientes com comorbidades. Foram pontuadas, na exposição, as declarações e resoluções que foram desenvolvidas por aquela entidade.

Integração entre associações

Além de participar do 19º Congresso Mundial de Psiquiatria, Miguel Roberto Jorge, presidente eleito da Associação Médica Mundial (WMA), representou a entidade em reunião da diretoria da Associação Mundial de Psiquiatria, também realizada na capital lusitana.

No encontro, o psiquiatra traçou possíveis parcerias entre as instituições em futuras ações, como na colaboração para o combate da síndrome de “burnout” entre médicos, no reforço de conscientização sobre a ocorrência de comorbidade física e mental, e na revalorização da relação médico-paciente.

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